O governo federal está endurecendo as regras de acesso ao aplicativo SouGov.br. A partir deste mês, crianças, adolescentes e pessoas legalmente incapazes só podem utilizar a plataforma mediante autorização formal de um responsável.
A medida corrige uma falha de segurança e divide os usuários em dois perfis: o representante legal e o representado. Agora, pais, tutores ou curadores precisam estar vinculados ao sistema para liberar o uso aos dependentes, garantindo o cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados e do ECA Digital.
Na prática, o responsável deve acessar sua conta Prata ou Ouro do Gov.br e aceitar os termos de uso. Somente após essa autorização é que o dependente terá o acesso liberado. Se houver tentativa de entrada antes da autorização, o sistema bloqueia a navegação automaticamente.
Existem diferenças nas permissões: enquanto o representante pode consultar e editar informações, o representado tem autorização apenas para leitura de dados. Além disso, funções sensíveis, como a contratação de empréstimos consignados e a Prova de Vida digital ficam suspensas para esses perfis.
Segundo o Ministério da Gestão e da Inovação, a iniciativa traz mais rastreabilidade e evita o uso indevido da plataforma, que atende servidores ativos, aposentados e pensionistas do Executivo Federal.
Vale lembrar que o responsável pode revogar a permissão a qualquer momento, suspendendo o acesso do dependente de forma imediata. Para o funcionamento pleno, ambos devem ter conta nível Prata ou Ouro no portal do governo.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) será usado para avaliar a educação brasileira. As provas anuais que, tradicionalmente, servem como principal porta de entrada na educação superior no Brasil, passam a ter a função de avaliar as competências e habilidades esperadas para o fim da educação básica.
A alteração nas atribuições do exame está no decreto presidencial 12.915 assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta segunda-feira (30), em Brasília, e publicado na edição do Diário Oficial da União desta terça-feira (31).
De acordo com o Ministério da Educação (MEC), a nova competência do Enem vai contribuir para a produção de indicadores educacionais que apoiem o acesso a políticas públicas educacionais.
Na cerimônia onde foi sancionado o decreto presidencial, o ministro da Educação, Camilo Santana, destacou que com a medida a avaliação será mais precisa.
“Muitas vezes, o aluno que está no terceiro ano [do ensino médio] não está preocupado com a prova do Saeb, mas com a prova do Enem. Por isso, não tenho dúvidas de que vamos aumentar a participação e fortalecer a avaliação do terceiro ano.”
Com o novo decreto, o Enem passa a ser a ferramenta oficial do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) para o fim do ensino médio.
O MEC afirma que os resultados obtidos no exame vão servir para atestar o domínio das competências e das habilidades esperadas ao final da educação básica, conforme determinado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e com as diretrizes curriculares nacionais da educação básica.
Isso significa que os dados coletados no exame serão usados para calcular o desempenho das escolas e o nível de aprendizado dos jovens nas redes de ensino públicas e privadas do país.
Na prática, os dados do Enem vão contribuir para saber se as metas estabelecidas estão sendo batidas.
Diagnóstico e qualidade
Como milhões de estudantes fazem o Enem anualmente, o MEC projeta que o diagnóstico gerado será mais preciso e abrangente.
Ao longo do tempo, os indicadores educacionais produzidos pelo Enem poderão ajudar a identificar desigualdades educacionais e também a garantir um padrão de qualidade na educação.
A medida pode garantir a comparação dos resultados do monitoramento das metas do Plano Nacional de Educação (PNE).
Transição
Posteriormente, o MEC planeja publicar uma portaria para definir a regra de transição para os as edições do Enem de 2027 e 2028 e o uso dos resultados do Saeb de 2025 para fins de cálculo de indicadores educacionais.
Segundo a pasta, a transição irá preservar “a comparabilidade das séries históricas e assegurar continuidade ao monitoramento das metas educacionais”, disse em nota pública.
Enem
O Enem continua sendo a principal ferramenta para ingressar no ensino superior, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu); e de iniciativas federais como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
Desde a edição de 2025, o Enem voltou a certificar a conclusão desta etapa de ensino para os candidatos que têm 18 anos completos e também alcançam a pontuação mínima em cada área do conhecimento das provas e na redação.
Os resultados individuais do Enem também podem ser aproveitados nos processos seletivos de instituições de ensino superior de Portugal que têm convênio com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para aceitarem as notas do exame.
Desde 1998, o Inep é responsável pela realização anual do Enem.
São Paulo - A 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado ocorreu neste domingo (29), na capital paulista. A concentração foi, a partir das 16h, em frente ao antigo prédio do DOI-Codi/SP, na rua Tutóia, onde funcionava um dos principais centros de repressão e tortura da ditadura militar brasileira (1964-1985).
O cortejo seguiu pelas ruas da zona sul, com destino ao Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera, sob escolta da polícia militar. Os agentes ficaram circulando entre os manifestantes do ato. Organizado pelo Movimento Vozes do Silêncio, iniciativa do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política, o ato reuniu centenas de pessoas, incluindo familiares de vítimas e movimentos de direitos humanos.
Com o mote “aprender com o passado para construir o futuro”, as entidades não apenas relembraram os crimes cometidos durante a ditadura militar mas denunciaram a repetição das violências de estado ao longo de décadas, mesmo após a redemocratização.
A coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, Lorrane Rodrigues chamou atenção para a importância de discutir os impactos da ditadura mesmo após a redemocratização. “A ditadura militar geralmente é um tema pensado, no imaginário coletivo, como algo estanque, como algo parado, como se o que aconteceu naquele período ficasse pra lá, a gente não precisasse falar ou conversar sobre ela”, disse.
“O lema da caminhada traz essa discussão: tentar entender quais são os impactos do período da ditadura militar no presente, no período contemporâneo, pra gente pensar um pouco o futuro”, acrescentou Lorrane, ao mencionar a necessidade de fortalecimento da democracia.
“A gente também tem que pensar um pouco sobre a construção dessa democracia, porque como está hoje não é suficiente, não é igualitária para uma parte significativa da população. A caminhada tem esse desejo de aproximar o passado e o presente de uma forma mais objetiva para as pessoas”, explicou. Uma das ferramentas para alcançar resultados no campo da memória, verdade e justiça, segundo ela, é o conjunto das recomendações da Comissão Nacional da Verdade.
“São 49 recomendações ao estado [brasileiro], e que até esse momento, do período que foi lançado até agora, foram pouco cumpridas ou parcialmente cumpridas. A gente já tem um caminho, o instituto faz o monitoramento das recomendações a cada dois anos, e o que a gente tem percebido é que são movimentações pequenas, alguns avanços significativos, mas acho que muito pouco perto do que as recomendações propõem para a sociedade”, relatou.
O diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sotilli, afirmou, em nota, que a Caminhada do Silêncio nasceu como uma resposta coletiva ao autoritarismo e às tentativas de apagamento. Ele destacou que a ditadura militar deixou uma herança de impunidade, o que se reflete na violência de estado que o país ainda sofre atualmente.
“Após cinco edições, queremos retomar o sentimento que originou essa manifestação. Temos vivido tempos em que a defesa do Estado democrático de Direito ficou muito delegada às mais altas instituições, mas seguimos enfrentando ataques graves contra a democracia. Por isso, este é o momento de dizermos que estamos na rua, de voltarmos a demonstrar nossa força”, disse.
Mais de 30 organizações da sociedade civil, movimentos sociais e entidades de direitos humanos participaram da iniciativa. Neste ano, os movimentos destacaram também a possibilidade defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar a aplicação da Lei da Anistia aos casos que envolvam crimes permanentes, como ocultação de cadáver.
São Paulo (SP)-29/03/2026. Caminhada Silenciosa em memória das vítimas da ditadura militar. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil - Paulo Pinto/Agencia Brasil
Perto do final do evento, a organização leu o manifesto da caminhada:
"Hoje, caminhamos em silêncio, mas não em ausência.
Nosso silêncio é a presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer.
Saímos de um lugar marcado pela dor, o antigo DOI-Codi, onde o Estado torturou, matou e tentou apagar histórias. E seguimos até um monumento que insiste em lembrar: as histórias não foram apagadas.
Nossos mortos não estão no passado. Nossos desaparecidos não são ausência.
Cada vítima de violência do Estado é permanência.
Se a Caminhada do Silêncio nasceu da urgência de resistir, seguimos caminhando porque ainda é preciso.
Este ato nasceu quando a democracia voltou a ser ameaçada de forma aberta, quando o autoritarismo deixou de ser lembrança e voltou a ser projeto.
Hoje, anos depois, seguimos aqui, porque a ameça não desapareceu. Ele se transformou, se reorganizou e segue à espreita.
Nunca foi tão importante defender a democracia. E nunca podemos esquecer: essa luta é contínua.
Relembrar para não repetir. Ocupar a memória para não esquecer nossa história.
Porque sem memória, a violência se naturaliza. Sem verdade, a mentira se institucionaliza. E sem justiça, a barbárie se repete.
A violência de Estado não ficou no passado.
Lutar por memória, verdade e justiça é afirmar que não aceitamos a impunidade. É exigir a responsabilização de torturadores, de seus cúmplices e daqueles que financiaram o terror.
É dizer, com todas as letras: ditadura nunca mais. Tortura nunca mais.
Este manifesto não é apenas denúncia. É compromisso.
Por isso, fazemos um chamado:
Às novas grações que não viveram o terror, mas herdam suas consequências. À sociedade civil que não pode se calar. Às instituições, que precisam ser defendidas, mas também transformadas.
Este é um tempo de escolha: entre esquecer ou lembrar. Entre repetir ou transformar. Entre silenciar ou agir.
Sabemos que resistir não é apenas lembrar o passado. Mas disputar o futuro.
Hoje, nosso silêncio fala. E o que ele diz é simples e inegociável:
Para que nunca se esqueça.
Para que nunca mais aconteça.
Seguiremos caminhando".
A seguir, foram lidos os nomes das vítimas de violência de estado do período da ditadura e também quem sofreu com isso também nos dias atuais. Após a leitura de cada um dos nomes, as manifestantes diziam, em coro, "presente".
O número de consumidores de livros cresceu em 2025 no Brasil, de acordo com pesquisa divulgada, nesta quinta-feira (26), pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Nielsen BookData. Os dados mostram que 18% da população acima de 18 anos comprou ao menos um livro, impresso ou digital, no ano passado. O número representa um aumento de 2 pontos percentuais – 3 milhões de novos consumidores – em relação a 2024.
“O crescimento de 3 milhões de novos consumidores em um único ano mostra que o livro mantém sua relevância e que há espaço consistente para a expansão do mercado editorial brasileiro”, afirmou a presidente da Câmara Brasileira do Livro, Sevani Matos.
Ela explicou que esse aumento é resultado de uma estrutura que envolve editoras, livrarias, autores, influenciadores, políticas públicas e iniciativas de incentivo à leitura.
O estudo Panorama do Consumo de Livros contou com 16 mil entrevistas realizadas em outubro de 2025, incluindo pessoas que compraram livros ou não no último ano. Entre aqueles que não compraram livros em 2025, cerca de 35 milhões de pessoas (28%) disseram que foram desmotivadas por falta de livraria ou loja por perto. Para 35% dos não compradores, os livros são caros.
Ainda na parcela de quem não comprou, um percentual de 16,3% informou que o motivo foi ter baixado livros digitais gratuitos e 16,1% disseram ter acesso a PDF gratuito. Coordenadora de Pesquisas Econômicas e Setoriais da Nielsen BookData, Mariana Bueno observou que grande parte desses casos está relacionada à pirataria.
“Para a gente [do setor livreiro], pirataria é demanda. Ou seja, são pessoas que estão, de alguma maneira, lendo mas não comprando. A gente diz que é uma demanda reprimida, que tem a possibilidade de o mercado alcançar, pensar ações para alcançar esse grupo de pessoas”, disse Mariana.
Confira mais informações sobre os dados de leitura no país no Repórter Brasil, da TV Brasil
Perfil dos consumidores
Segundo o levantamento, as mulheres representam 61% do total de consumidores de livros. Considerando recorte de raça, classe e gênero, a pesquisa indicou que as mulheres negras da classe C são o maior grupo consumidor de livros do país, alcançando 15% do total.
A pesquisa apontou ainda que o maior crescimento ocorreu entre os jovens. Na faixa de 18 a 34 anos, houve aumento de 3,4 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Para Sevani, as redes sociais se tornaram uma porta de entrada importante para novos leitores.
“Criadores de conteúdo, recomendações online e comunidades virtuais têm ampliado o alcance da literatura, especialmente entre os mais jovens”, analisou a presidente da CBL.
São Paulo (SP), 17/06/2024 - Feira do Livro 2025 no Pacaembu em São Paulo - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Mariana Bueno relatou que os livros de colorir foram um fator relevante para o crescimento registrado. No ano passado, 7,1% da população adulta, cerca de 11 milhões de pessoas, comprou ao menos um exemplar. O número equivale a 40% do total de consumidores de livros.
“Mas os dados do varejo indicam que os títulos de ficção, especialmente os Young Adult, tiveram papel decisivo nessa alta. São obras voltadas a um público mais jovem e conectado, o que dialoga diretamente com os resultados observados na pesquisa”, acrescentou.
Segundo a pesquisa, 56% dos consumidores de livros costumam fazer compras por meio das redes sociais. As mulheres entre 25 e 54 anos representam 76% das consumidoras e 26% do total de consumidores de livros que compram por essas plataformas.
Em sua última compra, 80% dos consumidores adquiriram um livro impresso, enquanto 20% compraram a versão digital. Além disso, 70% dos consumidores de livros afirmam gostar de acompanhar lançamentos, principalmente por meio de sites de compras (34%), indicação de pessoas próximas (30%), livrarias (24%) e criadores de conteúdo (22%).
A livraria mantém papel estratégico na experiência de compra, considerando que, para 53% dos consumidores, é um espaço para relaxar e explorar sem pressa, enquanto 46% associam esses espaços à conexão com cultura e conhecimento. Na última compra de livro impresso, 53% adquiriram por meio de compra online e 47% presencialmente.
“O livro não é apenas um produto, mas uma experiência cultural. Fortalecer livrarias, bibliotecas e políticas de acesso é fundamental para sustentar esse crescimento”, concluiu a presidente da CBL.
O Museu Histórico da Cidade vai receber no sábado (28) o festival Motirõ – Palavras da Mata, uma celebração à ancestralidade indígena no Rio de Janeiro.
O evento é gratuito, e conta com intervenções artísticas, oficinas artesanais e rodas de conversa sobre educação, e a força da literatura dos povos originários.
A escritora e arte-educadora Emiliana Marajoara assina a curadoria do evento e reforça a importância de dar visibilidade à produção indígena na cidade.
“Ainda existe um grande apagamento da produção indígena contemporânea. Quando ocupamos um espaço histórico da cidade com nossas palavras, estamos afirmando que fazemos parte dessa história.”
O festival começa às 10h e reúne escritores, artistas plásticos, artesãos, professores, músicos e outros artistas que residem no Rio de Janeiro. O Museu da
Entre os destaques, estão as oficinas de confecção de maracás, sonoridades arbóreas com bambu, oficina com sementes e colagem de CDs.
Para o público infantil, a programação conta com rodas de contação de histórias e intervenções artísticas com grafismo – pinturas corporais tradicionais de culturas indígenas.
O projeto é realizado com recursos do Edital Viva o Talento - Edição Rio Capital Mundial do Livro, integrado à Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
O Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro fica na Gávea. Clique aqui e saiba mais sobre o evento.
Interculturalidade
Entre os convidados do evento estão Urutau Guajajara, professor de cultura indígena, pesquisador de linguística e um dos líderes do movimento pelos direitos indigenistas na cidade do Rio de Janeiro; Daua Puri, fundador do Museu da Cultura Puri; Potyra Krikati, artesã e ativista indígena; e a escritora e curadora Emiliana Marajoara.
Segundo a organização, o festival Motirõ – Palavras da Mata surge como resposta ao apagamento histórico da cultura indígena nos espaços urbanos, e o projeto busca reforçar que os povos originários seguem como produtores de arte, pensamento e literatura.
Representantes de diversas etnias, como Puri, Tupinambá, Xavante, Guajajara, Marajoara, Xakriabá e Anambé, estarão presentes no festival.
Censo
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os dados do último Censo Indígena, de 2022, mostram que o Brasil tem quase 1,7 milhões de indígenas, o que corresponde a 0,83% da população brasileira.
No Rio de Janeiro, a população indígena corresponde a 16.994 pessoas, das quais cerca de 94% vivem em áreas urbanas e 5,4% em áreas rurais. Ao todo, o estado tem 207 etnias, o que coloca o Rio de Janeiro em sétimo lugar com maior número de povos indígenas do país.
De acordo com o IBGE, apenas na capital fluminense, existem 176 etnias. A cidade é a terceira mais diversa do país, atrás de São Paulo (194) e Manaus (186).
*Estagiária sob supervisão da jornalista Mariana Tokarnia.
Um estudo divulgado nesta terça-feira (31) pela organização não governamental ACT Promoção da Saúde, em parceria com a Agência Bori, mostra que a inflação de alimentos no Brasil se configura como um fenômeno estrutural, que encarece mais os produtos frescos em comparação com os ultraprocessados.
O levantamento foi elaborado pelo economista Valter Palmieri Junior, doutor em desenvolvimento econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Segundo ele, a inflação dos alimentos no Brasil não pode ser atribuída exclusivamente a questões sazonais ─ oscilações temporárias que tendem a se corrigir espontaneamente quando a estação muda. O estudo aponta o exemplo de alta no preço do tomate durante a entressafra.
O economista também defende que a inflação dos alimentos não pode ser só explicada por fatores conjunturais, que seriam variações por eventos não recorrentes, que podem durar meses ou poucos anos. Um exemplo é a desvalorização súbita do câmbio.
O estudo classifica a inflação da alimentação como estrutural, composta por pressões permanentes que não se resolvem sozinhas e exigem mudanças no modo como a economia está organizada.
“A inflação é estrutural, pois não decorre apenas de choques temporários, é específica, porque está associada às características históricas do modelo de desenvolvimento brasileiro”, escreve o pesquisador no estudo.
Em quase 20 anos, o custo da alimentação do brasileiro subiu 302,6%, ou seja, multiplicou por quatro, enquanto a inflação geral do país foi de 186,6%. Isso significa que, de junho de 2006 a dezembro de 2025, o encarecimento da comida supera em 62% o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), conhecido como inflação oficial.
Para efeito de comparação, Palmieri Junior mostra que nos Estados Unidos, no mesmo período, o nível de preços dos alimentos ficou cerca de 1,5% acima da inflação geral.
O pesquisador ressalta que no Brasil, quando acontece algum tipo de crise e os preços dos alimentos sobem muito, há resistência de recuo.
“Aumentar é fácil, mas depois, em algum momento, cair um pouco, isso é muito difícil. Vi isso em relação a alguns outros países”, disse em conversa com jornalistas para apresentar o estudo.
Ao detalhar os grupos alimentícios do custo da comida no Brasil, a pesquisa revela que os itens que mais subiram foram:
Tubérculos, raízes e legumes (359,5%),
Carnes (483,5%) e
Frutas (516,2%)
Saudáveis x ultraprocessados
O levantamento mostra que a perda do poder de compra é mais sentida em alimentos in natura.
“Se uma pessoa destinasse, por exemplo, 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com essa mesma proporção, ela conseguiria levar mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis”, diz.
Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas caiu cerca de 31%; e para hortaliças e verduras, 26,6%.
Já para compra de refrigerantes (+23,6%) e embutidos como presunto (+69%) e mortadela (+87,2%), aumentou.
Pelo lado dos ultraprocessados, o economista explica que o barateamento está associado ao fato de ter elementos como os aditivos, “que são industriais, com menos oscilação de preço”. Outro ponto é o fato de serem cultivos de “monotonia”, quando o solo é usado insistentemente para poucos tipos de alimentos, o que reduz a resiliência do cultivo.
“Poucos ingredientes básicos, como trigo, milho, açúcar e óleo vegetal, passam a ser transformados em milhares de produtos distintos por meio da adição de aditivos químicos”, diz.
Para o professor, o menor efeito da inflação nos alimentos ultraprocessados direciona as escolhas, fazendo as pessoas a comprar produtos menos saudáveis.
“Você vai tendo uma mudança nos padrões de consumo a partir disso”.
Uma pesquisa divulgada hoje pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostrou os fatores que impulsionam o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em comunidades urbanas.
Modelo exportador
Um dos fatores que levam ao aumento persistente dos preços, assinala, é a inserção internacional do Brasil e o modelo agroexportador.
O fato de o país ser um dos maiores exportadores de alimentos do mundo faz com que a prioridade dos produtores seja vender para outros países e receber o valor da produção em dólares, em vez de direcionar para o mercado interno.
Na década de 2000, mostra o estudo, o país exportava 24,2 milhões de toneladas de alimento e importava 14,2 milhões de toneladas. Em 2025, as exportações saltaram para 209,4 milhões de toneladas, enquanto as importações ficaram em 17,7 milhões.
“Esse indicador mostra a quantidade líquida de alimentos produzidos no país cujo destino é o mercado externo, reforçando o papel do Brasil como grande exportador e aumentando a influência do mercado internacional sobre os preços internos”, afirma.
O direcionamento para exterior faz com que os produtores brasileiros deem prioridade para itens que são mais demandados em outros países, como soja, milho e cana de açúcar.
A área dedicada ao cultivo dessas culturas passou de 41,93 milhões de hectares em 2006 para 79,30 milhões de hectares em 2025. Essa diferença é maior que todo o território da Alemanha (35,7 milhões de hectares).
No mesmo período, a área dedicada ao cultivo de arroz, feijão, batata, trigo, mandioca, tomate e banana encolheu de 10,22 milhões de hectares para 6,41 milhões de hectares. Para efeito de comparação, o estado da Paraíba se estende por 5,64 milhões de hectares.
Insumos mais caros
Outro elemento apontado como causa do encarecimento recorrente dos alimentos é o custo dos insumos agrícolas, como fertilizantes, defensivos, colheitadeiras e outras máquinas.
O estudo comparou preços dos triênios 2006-2008 e 2022-2024 e identificou os seguintes aumentos na moeda real:
fertilizantes: 2.423%.
herbicidas e reguladores de crescimento: 1.870%
colheitadeiras: 1.765%
inseticidas: 1.301%
ureia (fertilizante nitrogenado): 981%
peças e partes de máquinas agrícolas: 667%
Para o pesquisador, isso reflete a ausência de uma estratégia de desenvolvimento, com expansão de commodities (matérias-primas negociadas em grandes quantidades e preços internacionais) baseada em insumos e tecnologias controlados por oligopólios de países desenvolvidos.
O autor explica que há um ciclo vicioso que se reflete nos preços internos.
“Isso afetou o preço para todo mundo, inclusive para aquele pequeno produtor de feijão. Ele nem exporta, mas vai pagar o alto custo do preço dos insumos, e esse custo vai ser repassado para o preço do feijão”, exemplifica.
Concentração
Essa dependência é associada a outro fator que, na visão de Palmieri Junior, leva à inflação dos alimentos: a concentração da cadeia produtiva.
No estudo, ele revela que apenas quatro empresas estrangeiras de sementes respondem por 56% do mercado global.
No caso de empresas pesticidas, quatro companhias de fora do país abocanham 61% do mercado.
Nas máquinas agrícolas, 43% do mercado equivalem à participação de quatro empresas estrangeiras.
Na indústria alimentícia, prossegue o estudo, cinco marcas de duas empresas têm participação de 74,2% no mercado de margarina brasileiro.
Situação semelhante acontece no mercado de massa instantânea (73,7%). Cinco marcas de três empresas alcançam 83% do mercado de chocolates/bombom.
Inflação invisível
O economista cita que a inflação dos alimentos é ainda pior do que mostram os números, por causa da “inflação invisível”, que não é possível de ser medida. Ele classifica como esse fenômeno os produtos que mantêm o preço, mas alteram os ingredientes, acrescentando itens mais baratos em detrimento dos mais caros, fazendo com que o produto final perca qualidade.
Um exemplo é o sorvete, que passa a receber menos leite e mais açúcar. O mesmo acontece com o chocolate, que perde cacau em pó e ganha açúcar.
“Se o custo é reduzido piorando a qualidade, e vende com o mesmo preço, é uma inflação que não é computada pelos órgãos de pesquisa. Como você vai captar isso?”, questiona.
Soluções
A publicação aponta alguns caminhos com capacidade de reverter a trajetória inflacionária da comida.
“O preço da comida não é apenas uma variável econômica. Expressa escolhas políticas, distributivas e civilizatórias sobre o modelo de sociedade que se pretende construir”, frisa o autor.
Entres as sugestões estão:
desconcentração produtiva e fortalecimento das economias locais
reequilíbrio entre exportação e abastecimento interno
fortalecimento de estruturas como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e Centrais de Abastecimento dos estados (Ceasas)
ampliação de acesso à terra
crédito à produção condicionado a produção para o mercado interno
Palmieri Junior citou o exemplo de países desenvolvidos, como Estados Unidos e europeus, que realizaram reformas agrárias.
“Significa fazer com que a terra seja mais acessível a um conjunto da população. Isso contribui para uma soberania alimentar”, defende.
Para ele, a reforma agrária é benéfica para interesses do capitalismo.
“Se o alimento é barato, sobra mais dinheiro para o cidadão comprar outras coisas que o capitalismo está produzindo e lucrando muito mais”, avalia.
“Se para a população de um país, boa parte da renda tem que ser destinada para alimento, outros setores produtivos são prejudicados”, completa.